Aula 2 - REDAÇÃO - #7 ano 11/02/2021
A Última Crônica
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao
balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me
assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas
recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da
convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao
episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer
nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples
espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a
cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança:
“assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto.
Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas
mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na
contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma
negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que
se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os
olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém,
que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente
retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando
imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve,
concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher
suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás
do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo
simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o
pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que
os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe
remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se
mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um
animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na
fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende
as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e
sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito
compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
“Parabéns pra você, parabéns pra você…”
Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra
finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está
olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o
farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim,
satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo
de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba,
constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e
enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.”
Fernando
Sabino. In: Para gostar de ler.
São Paulo:
Ática, 1979-1980.
Entendendo
a crônica:
01 – Qual
é o título do texto? Quem é o autor?
02 – Qual
era a finalidade do autor ao entrar no botequim?
03 – De
acordo com o texto, identifique:
a) Foco narrativo:
b) Cenário:
c) Personagens principais:
d) Tempo:
04 – Qual
a profissão do narrador? Retire do texto que justifique sua resposta.
05 – O
narrador conta que entrou no botequim para tomar um café; mas qual era o real
motivo?
06 – De
acordo com o texto, no início do 2° parágrafo o termo usado pelo narrador tem
um tom pejorativo?
07 – O
casal senta-se no fundo do botequim. Por que motivo?
08– No
trecho: “Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição
tradicional da família, célula da sociedade.” Quem são esses Três esquivos?
.
09 –
Reescreva o trecho em que mostra a pobreza das personagens?
10 – Para
você, o texto “A última crônica” tem uma ideia de discriminação? De que tipo?
justifique.
11 –
Diante dos diminutivos (arrumadinha, negrinha, menininha, fitinha) que se
refere a menina; qual o sentimento do autor?
12 – O que
sente o autor, quando o pai da menina olha para ele e sorri?
13 – Qual
seria a melhor definição que poderia ser dada a esta crônica?
14 – Em uma
crônica, o narrador pode ser observador ou personagem. Qual é o tipo de
narrador da crônica em estudo? Justifique sua resposta.
15 – O
cronista costuma ter sua atenção voltada para os fatos do dia-a-dia ou
veiculados em notícias de jornal e os registra com humor, sensibilidade,
crítica e poesia. Ao proceder assim, qual dos seguintes objetivos o cronista
espera atingir com seu texto? (COPIE SOMENTE A RESPOSTA CORRETA)
a) Informar os leitores sobre um determinado assunto.
b) Entreter os leitores e, ao mesmo tempo, leva-los a refletir criticamente
sobre a vida e os comportamentos humanos.
c) Dar instruções aos leitores.
d) Tratar de um assunto cientificamente.
e) Argumentar, defender um ponto de vista e persuadir o leitor.

Comentários
Postar um comentário